Uma investigação recente do Centro Nacional de Investigação Nuclear da Polónia indica uma possível interacção entre neutrinos – frequentemente chamados de “partículas fantasmas” – e matéria escura, dois dos componentes mais misteriosos do Universo. Os cosmólogos descobriram que as observações atuais se alinham mais estreitamente com um modelo onde essas entidades indescritíveis interagem fracamente, potencialmente resolvendo um quebra-cabeça cósmico de longa data.

O problema com o modelo padrão

O modelo cosmológico padrão, embora bem-sucedido em muitos aspectos, luta para explicar completamente a distribuição da matéria no Universo. Quando os cientistas extrapolam dados do início do Universo – como a radiação cósmica de fundo em micro-ondas (CMB) e as oscilações acústicas bariónicas (BAO) – até aos dias de hoje, encontram discrepâncias. A aglomeração prevista da matéria não corresponde ao que observamos. Isso não é necessariamente um sinal de que o modelo está errado, mas sugere que pode estar incompleto.

Por que isso é importante: O CMB representa a luz mais antiga liberada cerca de 380 mil anos após o Big Bang, enquanto os BAO são estruturas antigas congeladas no tempo. Eles fornecem instantâneos do Universo primordial. Se não se conciliarem com a distribuição actual da matéria, isso implica que algo fundamental está a faltar na nossa compreensão da evolução cósmica.

Neutrinos e matéria escura: os jogadores evasivos

Tanto os neutrinos quanto a matéria escura raramente interagem com outra matéria. Os neutrinos, produzidos em estrelas e supernovas, são abundantes, mas passam por tudo quase despercebidos. Eles têm massa mínima e nenhuma carga elétrica. A matéria escura, por outro lado, não interage de forma alguma com a matéria comum – exceto através da gravidade. A sua existência é inferida a partir dos efeitos gravitacionais nas galáxias e no espaço-tempo, sugerindo que constitui cerca de 85% do conteúdo de matéria do Universo.

A ideia de que estas duas substâncias evasivas possam interagir não é nova; teorias existem desde o início dos anos 2000. No entanto, descobertas recentes, lideradas pelo físico Lei Zu, fornecem evidências mais fortes do que nunca.

Novas descobertas: um sinal três sigma

A equipe de pesquisa combinou CMB, BAO e dados do Dark Energy Survey – um projeto que mapeia a matéria escura e a distribuição de energia. Executando simulações com e sem dispersão de neutrinos-matéria escura, eles descobriram que incluir a interação fazia com que o Universo simulado se parecesse mais com o nosso.

A significância estatística está atualmente em 3 sigma – não uma prova definitiva, mas suficientemente forte para justificar uma investigação mais aprofundada. Este resultado está alinhado com sugestões anteriores e sugere que a interação, se confirmada, poderá ser um avanço.

“Se esta interação entre a matéria escura e os neutrinos for confirmada, seria um avanço fundamental”, diz o físico teórico William Giarè. “Isso não apenas lançaria uma nova luz sobre uma incompatibilidade persistente entre diferentes sondas cosmológicas, mas também forneceria aos físicos de partículas uma direção concreta para experimentos de laboratório.”

Implicações e pesquisas futuras

Se confirmada, esta interação poderá ajudar a refinar o Modelo Cosmológico Padrão, permitindo uma fraca dispersão entre neutrinos e matéria escura. Mais importante ainda, fornece uma orientação tangível para os físicos de partículas que procuram compreender a verdadeira natureza da matéria escura.

A equipe de pesquisa reconhece que mais estudos são necessários. Como afirma Sebastian Trojanowski, do Centro Nacional Polonês de Pesquisa Nuclear, testes rigorosos exigirão ir além das aproximações padrão na cosmologia de partículas. A busca para desvendar esses mistérios cósmicos continua, e os sussurros fracos de partículas fantasmas em interação podem ser a chave.

A evidência atual sugere que estas duas entidades evasivas podem não estar tão isoladas como se pensava anteriormente, sugerindo uma ligação mais profunda dentro da estrutura do Universo.